
Historia do baralho espanhol: origem e evolucao
Nao nasceu em Espanha. Dos naipes mamelucos a Heraclio Fournier: naipes latinos, padroes regionais e a pinta. Uma historia rigorosa.
O baralho espanhol nao se inventou em Espanha. Uma viagem documentada desde o papel chines e os naipes mamelucos ate aos ouros, copas, espadas e paus que hoje meio mundo hispanico distribui.
Comecemos a quebrar o mito mais difundido: o baralho espanhol nao se inventou em Espanha. O que se forjou aqui foi o seu aspeto —os ouros, as copas, as espadas retas, os paus nodosos, a sota a pe e o rei de corpo inteiro—, mas o objeto "naipe" chegou ja feito do outro lado do Mediterraneo, e antes tinha vindo de muito mais longe. Quando esta noite distribuir quarenta cartas para uma sueca, estara a manejar o ultimo elo de uma cadeia que arranca na China do papel, atravessa o Egito dos mamelucos e se planta em Valencia e Barcelona no ultimo quarto do seculo XIV. Vou conta-la como deve contar-se: com datas que constam em documentos, com nomes proprios, e separando com honestidade o que sabemos do que apenas supomos. Porque aqui quase toda a gente confunde tres coisas que nao sao o mesmo: o dado provado, a lenda repetida e a especulacao bonita.
Antes da Europa: o papel manda
Ha um principio material que nenhum historiador serio discute: sem papel barato nao ha naipes. E o papel inventou-se na China. Dai que a International Playing-Card Society —que reune hoje boa parte dos estudiosos solventes da materia— sustente que o jogo de cartas teve de nascer no ambito chines, ligado a invencao do papel e da impressao com blocos de madeira. Os primeiros baralhos chineses conhecidos usavam naipes de moedas e de fios de moedas: os mesmos "circulos" e "bambus" que sobrevivem hoje no mahjong. Esse e o tronco.
Sejamos rigorosos com a cronologia asiatica, porque aqui exageram-se muito as coisas. Nao conservamos um macao chines primitivo que possamos pôr sobre a mesa e declarar "este e o primeiro baralho do mundo, ano tal". O correto e falar de uma origem chinesa solidamente raciocinada pela logica do papel e do comercio, nao de uma data exata indiscutivel. O que esta fora de duvida e a rota: o papel difundiu-se desde a China para oeste atraves do mundo islamico, e por essa mesma estrada viajaram depois as cartas. Por isso encontrara muitas vezes, nas fontes prudentes, a formula "as cartas tiveram de inventar-se onde existia o papel". Nao e preguica: e honradez metodologica.
E como cruzaram o Mediterraneo? Nao e preciso inventar uma epopeia. A hipotese dominante —e a mais economica, no sentido de Occam— aponta para as rotas comerciais e maritimas que ligavam os portos do Mediterraneo islamico a Italia e a Peninsula. Um objeto barato, leve, plano e divertido difunde-se sozinho com o comercio. Ha um argumento indireto precioso a favor disto: as proibicoes contra os naipes brotam quase ao mesmo tempo em cidades europeias muito distantes entre si. Isso nao e o que se ve quando algo entra por um unico ponto controlado; e o que se ve quando algo se expande comercialmente como uma mancha de oleo.
O elo mameluco: a prova que se pode tocar
O passo intermedio decisivo foi o mundo islamico, e em concreto o Egito mameluco. Segundo as fontes solventes, os naipes adotaram-se ali por volta do seculo XIV —se nao antes— e do sultanato saltaram para a Peninsula Iberica. E aqui, por uma vez, nao falamos de conjetura: ha objeto. O celebre macao conservado no palacio de Topkapi, em Istambul, e um baralho de tipo mameluco com quatro naipes —naipes de polo, copas, espadas e moedas— e treze cartas por naipe: os numeros do 1 ao 10 e tres figuras, chamadas malik (rei), na\x27ib malik (lugar-tenente) e thani na\x27ib (segundo lugar-tenente). Tome nota desse "treze por naipe" e dessa estrutura: e praticamente identica ao esqueleto do baralho espanhol. Tem a sua logica historica: o reino nasrida de Granada foi um emirado islamico ate 1492, uma dobradica cultural perfeita entre os dois mundos.
Um detalhe que explica quase tudo: as figuras mamelucas nao representavam pessoas. Mostravam desenhos abstratos ou caligrafia, provavelmente pela reticencia do islao sunita a figuracao. Isto e chave para entender o que aconteceu depois. Quando os naipes desembarcaram na Europa crista, essas figuras abstratas transformaram-se em personagens reconheciveis: reis coroados, cavaleiros, pagens. Nao havia aqui o mesmo receio de representar o rosto humano, por isso o baralho "povoou-se" de gente. Conservou o esqueleto herdado do mundo islamico —quatro naipes, numeros, tres figuras— mas deu-lhe uma cara europeia e baixo-medieval. Essa tensao entre estrutura herdada e iconografia local e, no fundo, todo o segredo desta historia.
Insisto numa cautela, porque depois vem muita mistica barata. Quase tudo o que se conta sobre o "significado oculto" dos naipes —que se os naipes sao os quatro elementos, que se as figuras sao personagens historicos concretos disfarcados— pertence ao esoterismo moderno e a cartomancia, nao a historia documentada. O baralho nasceu como um traste para jogar e apostar, nao como um sistema simbolico fechado herdado de sacerdotes egipcios. Quando neste artigo ler "cre-se" ou "e uma hipotese", e porque a fonte seria o coloca como tal; quando ler uma data seca, e porque consta num documento que alguem pode ir consultar. Esta distincao nao e pedantismo academico: e o que separa a historia do romance. E a historia do baralho, contada com dados, e bastante mais interessante que qualquer lenda esoterica que lhe tenham pendurado em cima.
Ha alem disso um argumento de senso comum que convem ter presente. Os baralhos de que falamos eram objetos de consumo, baratos, que se gastavam e se deitavam fora. Nao eram codices iluminados pensados para durar seculos numa biblioteca. Por isso conservamos tao poucos exemplares medievais completos, e por isso boa parte do que sabemos deduzimo-lo de fontes indiretas: ordenancas municipais que os proibem, contas de gremios que os fabricam, sermoes que os condenam, inventarios que os listam. O historiador do naipe trabalha, em grande medida, como um detetive que reconstroi um objeto desaparecido a partir das pegadas que deixou nos papeis de outros. Te-lo presente ajuda a entender porque tantas coisas se formulam com prudencia: nao e que os estudiosos sejam tibios, e que as fontes obrigam a se-lo.
A prova linguistica: "naipe" e uma palavra arabe
De todos os argumentos a favor da origem islamica, o mais bonito e o mais solido e o filologico. A palavra naipe —e o catalao naip— procede do arabe na\x27ib, que era precisamente um dos postos das cartas de figura mamelucas, o "lugar-tenente". Nao e coincidencia poetica: o nome viajou colado ao objeto, como a palavra "algebra" ou "alfandega". Quando uma lingua toma emprestada ate a palavra para nomear algo, normalmente e porque tambem tomou emprestado o algo.
As primeiras mencoes em solo hispanico sao precoces, concretas e verificaveis. Isto nao e folclore; sao documentos:
- 1371 — A voz naip aparece, sem contexto que explique o jogo, no dicionario de rimas do poeta valenciano Jaume March. E o registo mais antigo conhecido da palavra na Peninsula.
- Por volta de 1380 — O oficio de naipeiro (fabricante de cartas) ja esta estabelecido: se ha um gremio que as faz, e que ha um mercado que as consome.
- Dezembro de 1382 — A lonja de Barcelona proibe os jogos de naipes.
- 1384 — O conselho da vila de Valencia proibe "un novell joch apellat dels naips": "um novo jogo chamado dos naipes". Repare no adjetivo: novell, novo. Para os valencianos de 1384 isto era uma moda recem-chegada.
Que se proiba algo em apenas uma decada, em cidades distintas e com ordenancas formais, e a melhor prova indireta do seu sucesso fulminante. Ninguem legisla contra o que ninguem joga.
Ouros, copas, espadas e paus: o nascimento dos naipes latinos
Ao adotar o baralho islamico, a cultura peninsular conservou os quatro naipes mas tornou-os reconheciveis para a gente daqui. Esse sistema —partilhado com a Italia e conhecido como "naipes latinos"— e o do baralho espanhol:
- Ouros — moedas de ouro, herdeiras diretas dos discos chino-islamicos. O naipe mais conservador: mal mudou.
- Copas — incorporadas ja no ambito islamico antes de chegar a Europa.
- Espadas — na versao espanhola sao retas, nao as cimitarras curvas que sugeria o original, e nao se cruzam entre si salvo, curiosamente, no tres de espadas.
- Paus — cacetes nodosos e rusticos, nao os bastoes cerimoniais longos do padrao italiano.
Vale a pena deter-se na diferenca com o baralho italiano, porque partilham os naipes latinos e muita gente os confunde. Nos baralhos italianos as espadas costumam desenhar-se curvas e entrelacadas, e os paus sao bastoes cerimoniais; no espanhol as espadas sao retas e os paus sao cacetes. E exatamente o mesmo mecanismo de "localizacao" que converteu a cimitarra islamica em espada castelhana: o baralho, ali onde chega, adapta-se a mao e ao olho de quem o usa. Nao ha um desenho "verdadeiro"; ha desenhos que cada cultura fez seus.
E agora, a cautela importante. E habitual ler que ouros, copas, espadas e paus representam os quatro estamentos medievais —clero, nobreza, comercio e campesinato— ou que correspondem aos quatro elementos ou as quatro estacoes. Sejamos claros: isso e uma interpretacao cultural posterior e discutida, nao um facto documentado por quem desenhou os naipes. E uma hipotese atraente, repetida durante seculos, mas hipotese ao fim e ao cabo. O unico firme e a genealogia material: moedas e copas vem do reportorio islamico; espadas e paus sao a versao terrena e reconhecivel dos naipes longos originais. Se lhe interessa como se repartem significados e cores na outra grande familia de naipes, desenvolvo-o com calma em /pt/content/34-naipes-do-baralho-de-poker.
40, 48 ou 50 cartas? Nao ha um so "verdadeiro"
Aqui engana-se quase toda a gente: o baralho espanhol nao tem um tamanho canonico unico. Tem configuracoes, e cada jogo esculpe a sua:
- 48 cartas — Nove cartas de numero (do 1 ao 9) mais tres figuras por naipe. E o baralho "completo". Provavelmente os primeiros baralhos peninsulares tiveram dez numeros por naipe (52 cartas), e a supressao de um grau deixou o standard de 48, que tinha alem disso a vantagem pratica de se imprimir em folhas inteiras.
- 40 cartas — O baralho "recortado": eliminam-se oitos e noves. E o mais usado hoje em Espanha para mus, brisca ou tute. Esta poda popularizou-se ao calor do ombre, o jogo de vazas que arrasou na Europa dos seculos XVII e XVIII.
- 50 cartas — As 48 mais dois jokers. Atencao: o joker e uma incorporacao moderna e de origem estadunidense, alheia por completo ao desenho latino original, como conto na /pt/content/33-historia-do-baralho-de-poker.
Esta flexibilidade nao e um defeito, e uma virtude cultural. O mus joga-se com 40 porque a sua mecanica de grandes, pequenas, pares e jogo nao precisa de oitos nem noves. A brisca e o tute funcionam igualmente bem com 40. Nao existe "o" baralho espanhol de um unico tamanho: existe um sistema de naipes e figuras que se adapta ao jogo. Essa elasticidade explica porque sobreviveu cinco seculos sem fossilizar.
Outra precisao util, a numeracao. No baralho espanhol o "1" de cada naipe e o as, e a ordem de forca das figuras e dos numeros depende do jogo concreto: no mus, por exemplo, o rei e o as tem um papel particular e os tres e os dois contam de forma distinta. O meu conselho de divulgador: aprenda o baralho atraves de um jogo, nao como uma tabela abstrata. O baralho espanhol nao se entende no vacuo; entende-se a jogar.
Sota, cavalo e rei: o cavalo medieval que sobreviveu
Esta e a diferenca mais visivel face ao baralho de poker. O espanhol tem tres figuras por naipe:
- Sota — pagem ou escudeiro; ocupa o lugar funcional do valete.
- Cavalo — um cavaleiro; literalmente, "cavalo". E a figura distintiva dos baralhos latinos.
- Rei — a figura coroada de maior posto.
A grande ausencia face ao baralho frances e a dama ou rainha. O espanhol conservou o cavalo medieval justamente onde o frances colocou uma dama. Quando os europeus do seculo XIV repovoaram de personagens as figuras mamelucas, cada tradicao escolheu o seu proprio elenco: a latina ficou com o cavaleiro a cavalo —figura social central da Europa feudal—, a francesa apostou na dama. Por isso a um jogador habituado ao poker o baralho espanhol parece "estranho": nao e que faltem cartas, e que a hierarquia de figuras e outra. O baralho espanhol e, em certo sentido, um fossil iconografico da Europa baixo-medieval que chegou vivo, a distribuir-se cada tarde, ate hoje.
E desmontemos um equivoco frequente: que o espanhol "nao tem valete". Tem-no; chama-se sota e faz exatamente o papel do valete frances. O paralelismo funcional e quase perfeito: sota = J, rei = K. O que o espanhol nunca incorporou foi a dama, e o que o frances de jogo corrente perdeu foi o cavalo. Se quer ver com detalhe como se distribuiram figuras e naipes em cada familia, desenvolvo-o em /pt/content/34-naipes-do-baralho-de-poker.
A pinta: um golpe de engenho espanhol
Por volta de meados do seculo XVII apareceu a pinta: umas interrupcoes na moldura exterior da carta que permitem identificar o naipe sem abrir o leque inteiro. O codigo e elegante pela sua simplicidade: nenhuma interrupcao em ouros, uma em copas, duas em espadas, tres em paus. Dai vem a expressao castelhana "conheci-o pela pinta". Nao e um adorno: e uma solucao de design nascida do jogo real, da necessidade de ler uma mao apertada sem a mostrar.
Detenha-se um segundo no quao engenhoso e isto. Seculos antes de o baralho ingles inventar os indices nos cantos —essa letrinha com o naipe que hoje lhe parece a coisa mais natural do mundo—, os fabricantes espanhois ja tinham resolvido o mesmo problema com uma solucao distinta e mais elegante: codificar o naipe na propria moldura decorativa, de modo que aperta as cartas em leque e, sem as ver inteiras, ja sabe o que tem. E um exemplo precioso de como duas tradicoes de naipes, isoladas, chegaram a solucoes diferentes para uma mesma necessidade pratica: ler depressa uma mao sem a mostrar ao adversario. A historia do design esta cheia destas convergencias, e o baralho e um manual delas.
Como se fabricava um naipe medieval
Para entender porque o baralho mudou tanto ao longo dos seculos ha que entender como se fazia. Um naipe medieval nao era papel solto: era cartao, varias folhas de papel coladas entre si para lhe dar corpo e opacidade —se a luz atravessasse a carta, ver-se-ia o valor pelo verso, e adeus partida—. Sobre essa base imprimia-se o desenho com um taco de madeira entintado (xilografia), e muitas vezes a cor acrescentava-se depois a mao ou com estenceis (pochoir). Era um oficio gremial, o do naipeiro, com os seus segredos de colagem e as suas tintas. Esta artesania explica duas coisas: porque os naipes eram relativamente caros no inicio —dai que se associassem ao jogo, ao vicio e as classes que se podiam dar a esse luxo— e porque a qualidade variava tanto de uma oficina para outra. Quando mais adiante falarmos da industrializacao de Fournier, lembre-se deste ponto de partida: um baralho era, durante seculos, um produto artesanal, irregular e caro. Converte-lo num objeto barato e uniforme foi uma pequena revolucao industrial em si mesma.
Padroes regionais: o naipe que o Estado controlou
Espanha nao teve um unico naipe, mas varios padroes consolidados ao abrigo de monopolios de fabrico —o estanco do naipe, que durante seculos controlou a producao e a tributou—. Existiram, entre outros, padroes de Sevilha, Madrid, Toledo, Valencia e Catalunha, cada um com o seu desenho, as suas molduras e as suas manias:
| Padrao | Tracos | Ambito e estado |
|---|---|---|
| Castelhano (Fournier, 1889) | Espadas retas tipo adaga, copas vermelhas, reis barbados, rostos nos ouros; figuras de corpo inteiro | Dominante em Espanha e exportacao; vivo (40 ou 50 cartas) |
| Nacional / catalao antigo | Reis com tunica longa que chega ate a pinta; nascido em Barcelona, sec. XVII | Adotado pela Real Fabrica em fins do sec. XVIII; hoje presente no norte de Africa e Equador |
| Catalao moderno | Copas em forma de oveira, amarelo e verde; reis que mostram a barriga da perna | Segundo mais difundido de Espanha (40 ou 50 cartas) |
| Madrid / Sevilha | Sem pinta nem indices; proximo do padrao franco-espanhol | Extintos por volta do sec. XVIII; o de Madrid gerou os padroes siciliano e napolitano |
Um apontamento pouco conhecido: quando a Real Fabrica adotou em fins do seculo XVIII o padrao catalao como naipe "nacional", esse gesto administrativo cortou pela raiz a producao dos padroes de Madrid, Toledo, Valencia e Sevilha. E um lembrete de ate que ponto a historia do baralho espanhol e tambem uma historia de monopolios, impostos e decisoes de gabinete, nao so de desenhadores inspirados.
Heraclio Fournier: quando um fabricante fixa um padrao nacional
A figura chave da era industrial tem nome e apelidos: Heraclio Fournier Gonzalez. E aqui convem afinar as datas, porque circulam varias e nem todas estao corretas. Fournier tinha nascido em 1849 em Burgos —o seu avo, o impressor frances Francois Fournier, estava estabelecido em Espanha desde o seculo XVIII—. Heraclio mudou-se para Vitoria em 1868 para se encarregar de um negocio de tipografia, e fundou a sua propria oficina na cidade por volta de 1870. Nao foi, portanto, um genio solitario que desenhou um baralho perfeito de um traco: entre 1875 e 1877, com a colaboracao do professor de desenho Emilio Soubrier e do pintor Ignacio Diaz Olano, lancou as bases do padrao castelhano que daria fama a casa. Esse baralho, na sua versao madura de 1889, obteve uma medalha de bronze na Exposicao Universal de Paris. Tracos hoje iconicos —reis barbados, rostos nos ouros, espadas tipo adaga, copas vermelhas— fixaram-se nessa oficina vitoriana.
Porque pode um fabricante "impor" um padrao a todo um pais? Por economia de escala, nao por decreto simbolico. Durante seculos o naipe esteve fragmentado em padroes regionais por culpa do estanco. Quando a industrializacao do seculo XIX permitiu imprimir com qualidade, barateza e volume, o fabricante capaz de distribuir melhor acabava por impor o seu padrao de facto. Fournier instalou maquinas a vapor, linhas de telefone, experimentou novos processos de impressao e montou ate uma sociedade de socorro para as suas trabalhadoras —porque boa parte do quadro eram mulheres—. O "Fournier" tornou-se sinonimo de baralho espanhol em meio mundo hispanico por capacidade industrial e comercial. E o mesmo mecanismo —economia de escala— que explica, a outra escala, o triunfo planetario do naipe frances que conto na /pt/content/33-historia-do-baralho-de-poker. (A empresa, alias, pertence hoje ao grupo belga Cartamundi, que a adquiriu em 2020: a globalizacao do naipe segue o seu curso.)
O legado daquela industrializacao toca-o cada vez que abre um baralho: a regularidade do corte, a nitidez da cor, a durabilidade do papel encartonado. O que na Idade Media era um objeto semiluxuoso, pintado ou estarcido a mao, converteu-se num produto quotidiano e acessivel. Essa democratizacao e uma parte essencial da historia que quase sempre se esquece: o baralho nao so mudou de desenho, mudou de preco. E por isso passou da corte para a taberna, e da taberna para todas as casas.
America, o norte de Africa e Filipinas: uma globalizacao precoce
Com a expansao hispanica, o baralho de naipes latinos difundiu-se por Espanha, Italia, partes de Franca, Hispano-America, o norte de Africa e Filipinas. Ali onde chegou deitou raizes no jogo popular:
- Mus — jogo de pares com sinais e aposta falada; emblema da sociabilidade espanhola.
- Tute e brisca — vazas familiares classicas.
- Truco (truc) — paixao rio-platense na Argentina e no Uruguai, com o seu proprio folclore de mentira permitida e picaresca.
- Cuarenta — jogo nacional do Equador, onde sobrevive alem disso o padrao nacional antigo.
- Ombre — jogo de vazas de origem espanhola que nos seculos XVII e XVIII foi uma autentica moda continental, antes de ser deslocado pelo whist e, mais tarde, pelo bridge.
Esta difusao nao foi so geografica, mas profundamente cultural. Em cada pais o baralho enredou-se com proverbios, sinais e rituais proprios. O truco rio-platense desenvolveu todo um codigo de gestos e de "mentira consentida" que o converte quase num genero teatral; o mus espanhol e inseparavel do final de almoco e da aposta cantada. A carta nao viajou sozinha: viajou com uma forma de se relacionar. Dizer "baralho espanhol" e, na realidade, nomear uma familia de culturas de jogo que partilham quarenta ou quarenta e oito cartas mas divergem em costumes.
E um detalhe historico honesto, porque a divulgacao nao deve maquilhar: o baralho tambem acompanhou a expansao colonial, com tudo o que isso implica. Chegou a America, ao norte de Africa e as Filipinas porque chegou o imperio. Nao e um detalhe menor para entender porque hoje o mesmo objeto se distribui em Manila, em Buenos Aires e em Sevilha. A historia dos naipes e, tambem, uma pequena historia da primeira globalizacao.
Ha um caso especialmente revelador: o Equador. Ali nao so se joga ao cuarenta como jogo nacional, como sobrevive em uso o padrao nacional antigo, essa variante de raiz catala com os reis de tunica longa que na propria Espanha foi deslocada pelo castelhano de Fournier. E um fenomeno que o linguista reconheceria: tal como certas formas do espanhol que na Peninsula soariam arcaicas se conservam vivas em zonas da America, certos padroes de naipe "emigraram" e fossilizaram longe de casa enquanto na sua origem evoluiam ou desapareciam. A periferia, por vezes, conserva melhor que o centro. Para o colecionador isto tem uma consequencia pratica: se quer ver como era o baralho espanhol de ha seculos, por vezes tem de olhar para Quito ou para Casablanca antes que para Madrid.
Convem tambem desfazer um equivoco de prestigio. Muita gente percebe o baralho de poker como "mais serio" ou "mais universal" e o espanhol como algo folclorico, quase de souvenir. E um preconceito. O baralho espanhol sustenta jogos de uma sofisticacao estrategica notavel —o mus, com o seu sistema de sinais, blefes e apostas faladas, e um jogo psicologico de primeira ordem, e o truco rio-platense e praticamente um duelo cenico—. Que um objeto seja tradicional nao o torna menor. O baralho espanhol nao e a versao "pitoresca" do de poker: e um ramo distinto da mesma arvore, com a sua propria profundidade de jogo e a sua propria historia, tao longa e tao documentada como a francesa.
Que baralho usar hoje: do museu a sua mesa
Longe de ser peca de museu, o baralho espanhol continua plenamente vivo: distribui-se cada dia em bares, casas e clubes, e ao mesmo tempo converteu-se em objeto de colecionismo, com reedicoes historicas e series especiais. A minha recomendacao pratica: para jogar ao mus, brisca ou tute em casa, um baralho castelhano de 40 cartas, papel encartonado e pinta nitida e insuperavel —e o herdeiro direto do padrao de Fournier—. Se o seu fraco e colecionar ou oferecer, procure reedicoes de padroes historicos: o catalao antigo ou o nacional tem um encanto que o olho treinado agradece. Na The Joker House encontrara ambas as coisas dentro da nossa seccao de baralhos de cartas. Para ver o panorama completo de familias e formatos, recomendo-lhe /pt/content/17-tipos-de-baralhos-de-cartas; e para a outra grande linhagem, a sua historia paralela na /pt/content/33-historia-do-baralho-de-poker.
Perguntas frequentes
De onde vem a palavra "naipe"?
Do arabe na\x27ib, um posto das cartas de figura do baralho mameluco (o "lugar-tenente"). A voz catala naip esta documentada ja em 1371 no dicionario de rimas de Jaume March. O nome viajou com o objeto.
O baralho espanhol e de origem espanhola?
Nao. O objeto "naipe" chegou do Egito mameluco no seculo XIV, e este por sua vez procede do ambito chines. O que se forjou na Peninsula foi o desenho de naipes latinos e a sua iconografia. Nao se inventou em Espanha: adaptou-se aqui.
Porque tem 40 cartas e nao 52?
O baralho completo tem 48 cartas (1-9 mais tres figuras por naipe). O de 40 elimina oitos e noves para jogos como o mus ou a brisca; essa poda popularizou-se com o ombre. O numero 52 e proprio do baralho frances, que acrescenta uma quarta figura e duas cartas mais por naipe.
O que significam ouros, copas, espadas e paus?
A sua associacao com os estamentos sociais medievais, os elementos ou as estacoes e uma interpretacao cultural posterior e discutida, nao um facto documentado pelos seus desenhadores. O seguro e a sua proveniencia material: moedas e copas vem do naipe islamico; espadas e paus "localizaram-se" como espadas retas e cacetes.
Quem foi Heraclio Fournier e quando criou o seu baralho?
Um fabricante (n. 1849) que se instalou em Vitoria em 1868 e fundou a sua oficina por volta de 1870. Entre 1875 e 1877, com Emilio Soubrier e Ignacio Diaz Olano, lancou as bases do padrao castelhano; a sua versao madura de 1889 ganhou um bronze na Exposicao Universal de Paris. Industrializou o naipe espanhol e fixou tracos como os reis barbados.
O que e "a pinta"?
As interrupcoes da moldura exterior, surgidas por volta de meados do seculo XVII, que permitem reconhecer o naipe de uma carta sem abrir toda a mao: nenhuma em ouros, uma em copas, duas em espadas, tres em paus. Dai "conheci-o pela pinta".
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